terça-feira, 16 de junho de 2009

Gestão de mudanças em tempos de crise


NAQUELA ÉPOCA O MURO de nossa casa era mais baixo e nossos filhos também. À meia-noite a campainha tocou. A vizinha vira dois homens pulando o muro e fugindo, levando o velocípede de meu filho. Ainda podia vê-los, dobrando a esquina a poucas quadras dali.

Com a adrenalina atropelando o bom senso, resolvi me candidatar a uma vaga de vítima no noticiário policial. Peguei minha viatura e saí em perseguição aos meliantes que haviam adentrado meu recinto para subtrair um veículo. O velocípede.

Aquele paladino da valentia, saltando pela porta escancarada de um carro de faróis altos e freada estridente, assustou os bandidos. De dentro do bolso do casaco eu apontava o inofensivo cano de meu dedo indicador, que nem sequer era oco. Eles tinham por líquido e certo que eu era policial. Líquido e certo foi o que quase fiz na calça quando vi a cara dos marginais.

Adrenalina demais e cautela de menos são a receita certa para o desastre. Não importa se o tempo é de paz ou de guerra, basta nosso negócio sofrer um atentado do mercado e queremos partir para o ataque. Mas atacar o que?

Quando a economia à frente para de repente, é loucura responder com o pé na tábua da insensatez, ou com a freada brusca do susto. O estrago pode ser maior. Em momentos assim é preciso serenidade para saber o quanto frear, para onde desviar e quando voltar a acelerar, escapando do engavetamento do mercado.

Como fazem os tubarões, é preciso estar sempre em movimento, mas atento, sem se deixar levar pelo pânico. Investigar, ponderar e agir com lucidez. Todo negócio exige coragem para começar, persistência para permanecer e ousadia para sair ou mudar, além de entusiasmo e cabeça fria. O entusiasmo nos motiva para o sucesso, mas as decisões emotivas nos levam ao fracasso.

Quando o Dr. Seuss decidiu escrever livros infantis, seus manuscritos foram recusados vinte e oito vezes. Qualquer um teria desistido, mas não o Dr. Seuss. Ele persistiu, e hoje celebra mais de duzentos milhões de livros vendidos em todo o mundo.

Todavia, a persistência cega é tão prejudicial quanto a parada ou mudança de direção sem razão. Um campeão de hóquei no gelo, a quem perguntaram como conseguia esquiar tão bem, respondeu: “Mantendo os olhos fixos no disco”. Ele parava ou mudava de direção quando tinha um motivo forte para fazê-lo.

Sem desprezar os competidores, e nem perder de vista o gol, às vezes é preciso estar preparado para desvios e retrocessos, uma espécie de acatamento estratégico das perdas que apenas postergam os ganhos. Isso porque às vezes tomamos decisões erradas e precisamos saber lidar com as consequências do erro.

Por isso, após pegar o velocípede e colocá-lo no carro, sem tirar os olhos dos bandidos que continuavam com as mãos levantadas, fiz a pergunta mais idiota do mundo:

- Por que vocês roubaram o velocípede?

Fiz de conta que acreditei quando um deles disse que estava sem dinheiro para comprar um presente de aniversário para o filho doente. Aqueles ladrões agora sabiam onde eu morava, e poderiam aprontar uma represália para quem quase os matara do coração, armado apenas com um dedo no bolso.

Em momentos assim, o melhor é tomar uma direção completamente nova, que surpreenda o outro, ainda que nos custe algo. Às vezes é preferível sair no prejuízo - trocar de produto, escolher outra atividade ou dissolver uma sociedade - só para evitar a dor de cabeça de um problema maior no futuro.

Foi o que fiz. Os dois deram um passo atrás, quando levei a mão livre ao bolso traseiro. Tirei a carteira, saquei dela uma nota e a estendi ao ladrão.

- Pegue. - disse eu com pose de Robin Hood - Compre um presente para seu filho.

Aproveitei para sair dali, enquanto eles estavam algemados pela surpresa. Voltei para casa com a certeza de que já podia dormir sossegado. Com algum prejuízo, mas sossegado.

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(extraído do livro "Gestão de Mudanças em Tempos de Oportunidades", por Mario Persona)

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